Egos de leão não aprendem línguas

Há dias um cliente apresentou queixa de uma colaboradora da minha equipa. Já suspeitava que sucederia. De antemão soubera que o cliente começou por protestar perante a colaboradora. E confrontado com as evidências da sua falta de razão, não gostou. Claro que não! Não ter razão até pode ser redentor - já lá vamos - mas começa por ser embaraçoso - escolho a palavra cirurgicamente. De novo, já lá vamos. Mas voltemos ao fio da meada. O cliente apresenta queixa. Não pela questão de fundo mas porque sentiu que a colaboradora não foi delicada consigo. Pois claro! O cliente tem sempre razão, mais que não seja razão em sentir-se embaraçado se o deixam sem argumentos e por isso dizer mal da colaboradora por destrate era a vingança possível. Passam-se dias e hoje fui ao vet com a cadela. Na vida somnos todos clientes e fornecedores e isso já devia ser uma pista para muita coisa. Às tantas estava um tipo com um gato preto na receção que perde as estribeiras. O tipo, o gato esse estava sereno. Vai de destratar a rececionista de que as senhas não avançavam e a hora da sua consulta já tinha passado. Tudo em maus modos. A senhora a ficar nervosa lá lhe diz que "consultas marcadas não tiram senha, anunciam a chegada no guichet e esperam. E o tipo sobe tom e meio à ira. Está quase a gritar... "COMO É QUE ELE IA ADIVINHAR ISSO?". E a senhora responde-lhe que está um dístico na porta que diz exatamente isso. E fica ali um segundo de silêncio de cortar à faca. O tipo está a pensar à velocidade da luz, óbvio. Encaixou uma direita nos rins e perdeu o fôlego. Está embaraçado. E agora? Entradas de leão têm destas coisas. Se corre mal é embaraçoso. A partir daqui temos dois caminhos. O mais sensato de decantar o embaraço em vergonha. Pode parecer que não mas a vergonha é um sentimento salutar. Pode ser redentora se escolhermos olhar para o copo meio cheio de aprender com os erros. Mas leão que é leão só tem dois caminhos: trazer o troféu para casa em triunfo ou sentir-se humilhado. A humilhação não é um copo meio cheio de evoluir pelo erro, é um copo cheio de vontade de retribuir o golpe. E agora? Eu claro, saquei o meu saco de pipocas imaginárias e estou assistir, a ver o que ele vai dizer... "Desculpe lá a minha ignorância..." - Mas é preciso a nota de rodapé que o timbre nada teve de humilde. Foi de um sarcasmo de quem só perde a parada quando reconhecer que perdeu e isso nunca... ... eu por mim agora estou a olhar para a minha senha que pelos vistos tirei em vão para esperar em vão. E decido ir à porta ler o tal aviso que não li. Lá estava ele! Só que havia cenas! A minha mulher diz que eu nunca aceito culpas sem reservas, tento sempre negociar uma rendição condicional. E eu sei que dito por ela não é um elogio mas eu acho que é sensato que concedamos reciprocamente coisas nos desaguisados da vida. E por isso eu tinha coisas para debater com a senhora da receção e lá fui pedir uma audiência para sugerir que os avisos eram pouco claros e os processos daquela receção podiam ser melhorados aqui e ali. A senhora olhou-me por cima dos óculos. O queixo tremia-lhe, estava visivelmente nervosa do impacto com o tipo do gato. Não valia a pena, eu sou o tipo simpático da yorkshire simpática e quis que percebesse isso. Sorri. "Eu percebo o que a senhora disse mas bastava melhorar uma coisinha ou outra e era bom para todos..."... E porque o queixo persistia em tremer sorri de novo e lá fui para a consulta da Mokambo. E no fim já me vinha a vir embora quando a senhora me fez sinal "Pode aguardar um bocadinho? Gostava de falar consigo.." - podia. E a senhora foi comigo à porta. Ficámos a olhar para o dístico. Eu lá lhe expliquei o que me parecia menos claro. "E se esta frase passasse para cima?" - "Olhe, ajudava!" - digo eu... "E talvez acrescentando "isto"!" - Estamos ambos satisfeitos com o nosso projeto. "Sabe... ... eu acho que vai continuar a haver gente que simplesmente não lê e reclama na mesma..." - "Pois vai mas a senhora vai ter ainda mais razão perante essas situações-". Rimo-nos ambos. Fiz uma amiga.

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