Centralização no cliente Igreja style

Às vezes confundimos o objetivo último, essencial e inconfesso, por pudor de comunicação, das organizações com os objetivos estratégicos ou meramente táticos. Num projeto lucrativo o objetivo é esse mesmo, o lucro. Não, nem é esse, é orientar a vida mais lato sensu dos que detêm e gerem as organizações. Os chavões das visões, missões, centralizações e satisfações e fidelizações no cliente são o passo seguinte dos Fatores críticos de sucesso. Esquecer os primeiros é ser sonso, lírico. Esquecer os segundos é a expressão da ineficácia e do incumprimento, roça a fraude e é uma muito provável condenação ao insucesso de uma organização. Por estes dias conclui (bom, eu já sabia mas reforcei a convicção) que a Igreja é uma organização muito especial com um biz case muito especial. A igreja é desde logo a menos sonsa das organizações porque por muito que correntes reformistas queiram arejar a casa com a conversa de uma centralização no cliente, o DNA histórico e corporativo vem sempre ao de cima e os Bispos têm sempre o coração na boca de uma honestidade que de algum modo é cândida: A Igreja é solidária antes de tudo o resto consigo mesma e está muito focada em salvar quem está dentro do convento. Salvar a pele. Bem sei que o discurso alega a alma mas aos meus olhos agnósticos parece-me sempre que a Igreja se foca em salvar a pele e no resto deixa para Deus. No que é que isto é diferente das organizações laicas? Não sejamos hipócritas, nunca cheira a podre só na Igreja ou no Reino da Dinamarca! Só que o spin de informação laico perante a crise tem, se quisermos ser cínicos, uma lógica:negar ou relativizar culpas e consequências. No discurso da igreja isso existe mas depois acrescenta-se uma arma secreta de lógica divina: se não houver como varrer os pecados para debaixo do tapete, a contrição redime e expia os pecados. O que é porreiro porque a Igreja tem afinal de contas a competência orgânica para a absolvição espiritual da própria Igreja. Uma organização com esta estratégia, focada em si mesma e a terraplanar ad eternum o capital de confiança com os seus públicos pode sobreviver? A coisa correu bem nos últimos 2000 anos. Também aí é um modelo de negócio diferenciado. Enquanto que os marketeers da vida andam a descabelar-se para estratégias de atração e fidelização de clientes a Igreja não tem clientes, tem fiéis e isso logo à partida ajuda. Aliás, a persona ideal de um cliente da igreja tem um perfil de sonho para qualquer marketeer: tem uma fé inabalável nos valores que a marca comunica mesmo que a experiência de cliente seja completamente desalinhada e permanece aquilo que é por definição: um fiel.

Comentários

Mensagens populares