Tiro ao Melo - Crónica em III atos que também é de retratação

I Ato - O protagonista partilha em jeito de quem malha

Ontem partilhei isto...

A verdade é que nem li. Tinha a vaga ideia de que de facto o Nuno Melo votara contra e antipatizando tendencialmente com as posições democratas-cristãs em quase tudo desta vida, da economia, à ética, partilhei. Malhar no Melo e um protesto que à contrário sensu é de apologia do tratamento humanista da crise mediterrânica pareceu-me bem no reflexo da partilha que na realidade não teve grande ponderação.

II Ato - O amigo chato democrata cristão (ou de direita liberal ou um pouco de ambos, não interessa agora)

Uma das coisas engraçadas de eu ser eu e ter tido pouco mais ou menos o trajeto que tive pela vida é que tenho estimas de vários credos e castas sócio-económicas. Desde os amigos vagamente revolucionários de esquerda aos francamente conservadores de direita, monárquicos e coisa e tal, passando pelos vegans de filosofia alternativa e por tudo o que milita ao centro. Só de extrema-direita é que não porque eu tenho boa boca mas há sempre qualquer coisa de que um gajo não gosta. No meu caso é iscas e fascistas. E por isso na minha vida e, claro, no meu Facebook, há de tudo. E por isso apareceram logo  dois ou três gostos do tiro ao Melo…           … e apareceu o tal amigo chato e indignado porque a notícia é falsa e caluniosa. E, reparem-se, digo chato porque me obrigou à maçada de aprofundar o tema.

Lá fui eu...

E é de facto falsa na medida em que só conta uma parte da história de um modo simplista e insidioso. Meias verdades também são meias mentiras e dizer pura e simplesmente que o Nuno Melo votou contra o salvamento de vidas no Mediterrâneo e portanto por facilidade enunciativa é um  aleijão moral é no mínimo abusivo.

Quem quiser perceber a estória de um modo resumido mas honesto, leia isto.

Eu, para rematar apenas digo que tenho pena que enquanto vidas se perdem no Mediterrâneo as famílias políticas moderadas da Europa se percam na discussão de espaço tático do "eu chumbo a tua resolução porque tu chumbas a minha". E aí também o Melo terá culpa. Têm todos e é lamentável.


Mas o artigo, o tal que eu partilhei sem ler não era fora da medida do meu modo de ser só na substância. E isso leva-nos ao III ato.


III Ato - A catarse do protagonista

Se não tivermos cuidado todos nos arriscamos a ser arautos da notícia falsa ou pelo menos deturpada. Se não tivermos cuidado todos nos arriscamos a ser os imbecis que regam a paz com gasolina à espera que o acaso lhe chegue um fósforo.
Se não tivermos cuidados todos nos arriscamos a trautear a cassete de quem vê sempre apenas um lado das verdades complexas e multifacetadas.
E se não tivermos cuidado todos nos arriscamos a ser imbecis convictos, dogmáticos e haters da diferença que nem nos esforcemos para compreender.

O civismo passa pelo decoro nos termos utilizados no debate, passa pela não diabolização das convicções diferentes das nossas. Passa pelo esforço empático de perceber o outro lado. E isso perde-se quando embarcamos em cruzadas ideológicas e maniqueísmos do Bem e do Mal mesmo que acreditemos realmente que estamos certos. Mesmo assim...

Pronto, posto isto e retratado que estou, vou pensar duas vezes antes do próximo post. É que isto de ser escrutinado por chatos de todos os lados é uma trabalheira.

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