Pensamento de gordo
Sou daqueles que ganha e perde peso com uma facilidade trágica/ entusiasmante - dependendo do sentido em que vou a fazer o caminho de cada vez. No entanto em todas as milhas acumuladas nas viagens de ida e volta nunca experimentei aquela sensação epifânica de me tornar um devoto definitivo de uma alimentação imensamente saudável ou de uma malhação maníaca e das tais hormonas mágicas que a mesma diz que liberta. Comigo nunca aconteceu! Consigo perceber e sentir os equilíbrios e na verdade, quando me consigo posicionar nos ditos cujos, pergunto-me a mim mesmo porque é que depois descambo. E creio que a resposta para isso é a mesma que explica porque é que não sou como alguns que conheço que - às vezes depois dos 30 e até dos 40 e dos 50 - lhes deu para correr maratonas e ultra maratonas e para participar em concursos do homem de ferro e para viver de dietas religiosas, seja à base de bife tártaro e gemadas, seja de bagas de gojee de produção própria e para passarem às vezes de gordos a Exterminadores Implacáveis. E justamente nunca conseguiria o compromisso com estas altas performances porque nem num equilíbrio de comum mortal consigo estar sempre e isto tudo porque a minha mulher tem razão e EU TENHO PENSAMENTO DE GORDO.
Ter pensamento de gordo não significa ser-se/estar-se necessariamente gordo. Mas é como os alcoólicos. Uma vez alcoólico sempre alcoólico. Uma vez gordo, sempre gordo. Um alcoólico não pode beber socialmente e parar com a naturalidade de quem não tem um problema de álcool. Um gordo come socialmente e quando dá por si comeu três pratadas e duas sobremesas. É trágico.
O pensamento de gordo assenta em duas grandes premissas:
1- Não precisamos de ter fome para comer embora na verdade tenhamos sempre fome
2- Não fazemos desporto por gosto. Fazemos desporto para poder comer três pratadas e duas sobremesas.
O pensamento de gordo também pressupõe uma manipulação de perspetivas. No ser gordo quase tudo é relativo. Quase tudo é subjetivo. Depende do ângulo em que nos olhamos, depende do espelho, depende da roupa, depende do humor, depende de com quem nos estamos a comparar e com que fase do nosso próprio caminho tortuoso de oscilação de peso. De facto, a única coisa que é objetiva nisto tudo é uma balança bem calibrada e é por isso que a grande porca passa tanto tempo a ganhar pó num canto qualquer em que não nos possa emboscar a gritar-nos coisas ingratas.
E finalmente o pensamento de gordo é eficiente e isso traz-nos à peripécia que me deu mote para todo este insight...
Tenho andado mais ou menos de dieta e mais ou menos bem comportado a malhar. E com resultados: perdi peso, baixei tamanhos de roupa, ganhei massa muscular, sinto-me mais em forma.
Porreiro pá!
Provavelmente adivinharão o twist end de que isto não é completamente verdade e assim como o Bruce Willis no Sexto Sentido não sabia que estava morto porque os mortos só vêm o que querem, o Rui também não sabia que ainda estava gordo porque os gordos só vêm o que querem...
Até que ontem decidi que já levava uns bons meses de ginásio a treinar por contra própria, estava em forma e encorajei-me a ir às aulas daqueles PTs hiperativo-maníacos lá do Health Club.
Ia morrendo.
De repente desfez-se a minha ilusão e vi-me um gordo pesado com menos pança mas pança ainda assim a hiperventilar, gravemente à beira de desmaiar. Não desmaiei apenas por vergonha. Homens com mais 20 anos do que eu, na verdade gente de ambos os géneros, todas as idades e tamanhos de rabo e pança e estavam ali e nenhum parecia ir desmaiar antes de mim! E por isso simplesmente recusei-me a ser o elo mais fraco daquela gente e salvei-me com mind games! Os Gordos são bons em mind games! A cada exercício escolhia um tipo que parecesse estar a sair-se pior do que eu e isso foi-me dando alento. Quando não havia nenhum realmente pior dava o meu melhor a tentar não ser muito pior. Eu sei, pensamento guerreiro era perseverar e trabalhar para me superar a mim, a caminho de ser o melhor de todos.
Mas os gordos não são guerreiros, são eficientes...
… sei disso desde que há uns anos me meti no disparate de praticar uma daquelas artes marciais em que se apanha porrada a sério. Naturalmente que não durei lá muito tempo mas enquanto saí e não saí aprendi isso: "não era um guerreiro"; fazia parte da rotina de treino ir tudo "ao castigo" com o treinador. No fim claro que todos iam ao tapete mas antes todos davam o seu melhor por uns minutos. Até os lingrinhas aguentavam uns quantos golpes. Menos o Rui que ao primeiro soco bem metido aterrava. "Tu não tens espírito guerreiro." concluiu rapidamente o Sensei… Claro que não! Eu tinha o espírito eficiente de um gordo: no fim ia tudo ao tapete e eu sempre apanhava menos.
E por isso um gordo não treina para ser realmente fit. Treina para perder uns quilos. Treina para caber na roupa. Treina para comer. E para que no fim disto tudo quando se enganar que, agora sim, está em forma… … não seja completamente mentira.
E por isso hoje estou de ressaca, mal me mexo, sinto músculos que não sabia que existiam e para me levantar da sanita vejo-me na figura ridícula de ter que ser a força de braços apoiado no bidé, na falta de força nas pernas e sobretudo na falta de um andarilho. True story!
Mas amanhã estou lá outra vez na aula. Sem ilusões de ser realmente fit. Cada um joga no seu campeonato e o meu é o de não desmaiar a meio do treino, perder o resto da pança, deixar de ouvir a mulher a dizer que sou meio gordo.
Mas de algum modo é-se eternamente meio gordo. Porque mesmo quando a pança desaparece e o caparro cresce há sempre uma vozinha esquizofrénica que à noite nos sussurra insinuante
"Vai lá ver o que há no frigorífico…"
Ter pensamento de gordo não significa ser-se/estar-se necessariamente gordo. Mas é como os alcoólicos. Uma vez alcoólico sempre alcoólico. Uma vez gordo, sempre gordo. Um alcoólico não pode beber socialmente e parar com a naturalidade de quem não tem um problema de álcool. Um gordo come socialmente e quando dá por si comeu três pratadas e duas sobremesas. É trágico.
O pensamento de gordo assenta em duas grandes premissas:
1- Não precisamos de ter fome para comer embora na verdade tenhamos sempre fome
2- Não fazemos desporto por gosto. Fazemos desporto para poder comer três pratadas e duas sobremesas.
O pensamento de gordo também pressupõe uma manipulação de perspetivas. No ser gordo quase tudo é relativo. Quase tudo é subjetivo. Depende do ângulo em que nos olhamos, depende do espelho, depende da roupa, depende do humor, depende de com quem nos estamos a comparar e com que fase do nosso próprio caminho tortuoso de oscilação de peso. De facto, a única coisa que é objetiva nisto tudo é uma balança bem calibrada e é por isso que a grande porca passa tanto tempo a ganhar pó num canto qualquer em que não nos possa emboscar a gritar-nos coisas ingratas.
E finalmente o pensamento de gordo é eficiente e isso traz-nos à peripécia que me deu mote para todo este insight...
Tenho andado mais ou menos de dieta e mais ou menos bem comportado a malhar. E com resultados: perdi peso, baixei tamanhos de roupa, ganhei massa muscular, sinto-me mais em forma.
Porreiro pá!
Provavelmente adivinharão o twist end de que isto não é completamente verdade e assim como o Bruce Willis no Sexto Sentido não sabia que estava morto porque os mortos só vêm o que querem, o Rui também não sabia que ainda estava gordo porque os gordos só vêm o que querem...
Até que ontem decidi que já levava uns bons meses de ginásio a treinar por contra própria, estava em forma e encorajei-me a ir às aulas daqueles PTs hiperativo-maníacos lá do Health Club.
Ia morrendo.
De repente desfez-se a minha ilusão e vi-me um gordo pesado com menos pança mas pança ainda assim a hiperventilar, gravemente à beira de desmaiar. Não desmaiei apenas por vergonha. Homens com mais 20 anos do que eu, na verdade gente de ambos os géneros, todas as idades e tamanhos de rabo e pança e estavam ali e nenhum parecia ir desmaiar antes de mim! E por isso simplesmente recusei-me a ser o elo mais fraco daquela gente e salvei-me com mind games! Os Gordos são bons em mind games! A cada exercício escolhia um tipo que parecesse estar a sair-se pior do que eu e isso foi-me dando alento. Quando não havia nenhum realmente pior dava o meu melhor a tentar não ser muito pior. Eu sei, pensamento guerreiro era perseverar e trabalhar para me superar a mim, a caminho de ser o melhor de todos.
Mas os gordos não são guerreiros, são eficientes...
… sei disso desde que há uns anos me meti no disparate de praticar uma daquelas artes marciais em que se apanha porrada a sério. Naturalmente que não durei lá muito tempo mas enquanto saí e não saí aprendi isso: "não era um guerreiro"; fazia parte da rotina de treino ir tudo "ao castigo" com o treinador. No fim claro que todos iam ao tapete mas antes todos davam o seu melhor por uns minutos. Até os lingrinhas aguentavam uns quantos golpes. Menos o Rui que ao primeiro soco bem metido aterrava. "Tu não tens espírito guerreiro." concluiu rapidamente o Sensei… Claro que não! Eu tinha o espírito eficiente de um gordo: no fim ia tudo ao tapete e eu sempre apanhava menos.
E por isso um gordo não treina para ser realmente fit. Treina para perder uns quilos. Treina para caber na roupa. Treina para comer. E para que no fim disto tudo quando se enganar que, agora sim, está em forma… … não seja completamente mentira.
E por isso hoje estou de ressaca, mal me mexo, sinto músculos que não sabia que existiam e para me levantar da sanita vejo-me na figura ridícula de ter que ser a força de braços apoiado no bidé, na falta de força nas pernas e sobretudo na falta de um andarilho. True story!
Mas amanhã estou lá outra vez na aula. Sem ilusões de ser realmente fit. Cada um joga no seu campeonato e o meu é o de não desmaiar a meio do treino, perder o resto da pança, deixar de ouvir a mulher a dizer que sou meio gordo.
Mas de algum modo é-se eternamente meio gordo. Porque mesmo quando a pança desaparece e o caparro cresce há sempre uma vozinha esquizofrénica que à noite nos sussurra insinuante
"Vai lá ver o que há no frigorífico…"
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