Crónica de Bofá

"Bofá!"

Era o grito de guerra dos turras da turma. Gil Vicente não lhes dizia nada mas gostaram da sonoridade bizarra do arcaísmo que se tornou um estandarte     …  era sempre assim, a vida era uma piadola vagamente nonsense. Éramos putos de 15, 16 anos e sim éramos de algum modo clichés, cada um de nós, cliché de alguma coisa. Mas sempre achei que havia ali alguma coisa de diferente, justamente nada cliché, porque era paradoxal. Era quase sempre mais parvo e infantil do que se esperaria daquela idade. E no entanto havia ali uma ironia fina  entremeada na parvoíce de momentos boçais. Sim, recordo o 10-7 e o 11-8 muito pelo humor. Uma trupe de palhaços a driblar como iam sabendo as contingências da adolescência, entre acne, hormonas aos saltos e dores de crescimento. Geria-se. Já ter ou ainda não ter jeito nenhum para miúdas. As notas altas e as nem por isso, a mochila que trazíamos de casa e que mais ninguém sonhava que às vezes nos pesava muito. E no fim ainda a charada da aceitação dos outros naquele microcosmos de vinte e muitos putos na claustrofobia da turma. Mas ia-se gerindo. Às vezes a estender a mão, outras em patifaria de presas e caçadores. No fim? Sim, foi doce. Não foi sempre doce. Mas a memória arredonda as coisas por defeito e se nos diz que foi doce é porque foi, mesmo que possamos não ter tido a exata noção no momento.

Ontem imaginei a possibilidade de poder voltar lá em passe de mágica. Assim numa cena de flashmob freeze, sabem? Eu a entrar por aquela sala maltrapilha da velha escola e ver a vossa foto viva do rebuliço desses dias. Em que vos pudesse rever nesse passado e contar-vos um segredo. Não se trata da veleidade de alterar os rumos e evitar os disparates a segundos de serem cometidos ali mesmo e todos os muitos mais erros que todos iríamos cometer vida fora. Não, não, não. A estrada tinha mesmo que ser corrida para que cada um possa viver todas as derrotas que semeiam a possibilidade de vitórias e vice versa. Era outra coisa...

Apeteceu-me dar-vos a boa notícia de que as noites como a de ontem viriam aí. E que isso só dependeria de nós. Que olhassem em volta e, apesar de tudo o que poderiam pensar nesse momento, ficariam surpreendidos se eu vos contasse a história toda em tudo aquilo que ela traria de muito e de nada previsível. Mas que no fim alguns estaríamos ali. A rir como se não tivesse passado tempo nenhum. A acarinhar aquele dia de aulas numa qualquer terça-feira à tarde que estava a valer mais do que poderiam sonhar. Porque no fim ficariam laços e a vontade de nos reencontrarmos dali a muito tempo a trocar histórias dos nossos caminhos, a desabafar mágoas e a reencontrar pontes.

E dizer-vos que a ponte para esse dia já a estavam a construir. E dizer-vos que mesmo que as tolices e as diletâncias e as apatias adiassem coisas, elas estavam sempre a tempo de ser repostas.

Foi isso que imaginei. Poder dizer-vos. "Malta, sorriam, nunca se esqueçam de sorrir mesmo nos dias beras. Vamos todos voltar cá uns pelos outros."




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