Tertúlias

Há poucos momentos intelectualmente mais intensos do que os de concílio de más horas e pós jantar de grupo boémio à porta de restaurante. A ressaca da nicotina arrasta os convivas para o ar fresco. Roçam ombros em círculo enquanto puxam baforadas de tabaco. Alguns trarão o copo da mesa e certo é que há brilhos nos olhos e risos malandros da dolência do momento. Dentro em breve brotará o assunto se é que não veio já arrastado da mesa comensal. E podem suceder duas coisas. Ou o disparate da noite que não são noites, à desgarrada das farpas que cada um vai metendo à algazarra, coroado por gargalhadas que ecoem pela rua. Ou então a alma intensifica-se e pairará sobre o círculo uma alquimia ilusiva de rasgos filosóficos, intelectuais e sobretudo, intensos, sim, muito intensamente sentimentalões. Assim os astros alinhados, tudo é possível, conspiram-se revoluções, esboçam-se utopias. E mesmo que nos quedemos pelo mundano das nossas vidas tudo é sentido. Descobrimos o agridoce do outro, inusitados otimismos ou áridos nihilismos de humor efémero. Com jeito nascem nestes círculos mágicos laços e dá-se a catarse de reconciliações e confissões que mais não são do que distorções da alma, a que a seu tempo a manhã e a ressaca trarão primeiro o arrependimento e depois o simples esquecimento. Mas até lá é noite e somos versões amplificadas de nós mesmos naquele jantar de grupo. Vozes embargadas num esforço de articular apesar do vinho à discrição, corpo titubeante, gestos largos e a suprema intensidade de bêbedos a levarem-se reciprocamente a sério à porta do restaurante. Abrem alas da Rua de Arroios em que a calçada é estreita para que eu passe com os cães. Os olhos húmidos expressam-me doçura e confusão. Eu sorrio e demoro-me porque lhes venho a ouvir a conversa e tentarei não perder a moral antes que me afaste demasiado.


Há um gimbras que diz  com mal disfarçada vaidade que  ..."Eu conheci muito bem a Lena d'Água nessa altura, não é...             ... comó Pai...                 ... ganda jogador!"


O tipo ao lado - um pintas de bairro, muito mais novo,  chupa fumo do cigarro a aquecer o pulmão na noite fria e meneia assertivo "Conheces o Rui Águas?!"


"Não pá... O José Águas! Ganda jogador que foi, té dava gosto. Aliás o sobrinho, que conheci também muito bem, foi outro."


"O Rui Águas?" - o outro já não entra tão à papo seco. Enfiou as mãos nos bolsos e o corpo enfiou-se a seguir.


"Não pá, o José Águas!"


"Oh Foda-se, e o Rui Águas?"


"É filho!"


"Do Raúl?"


"Do José, foda-se!"


"Ah...                       ... vou para dentro, tá frio!"

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