Sorry seems to be the hardest word

No corriqueiro da vida, a esfera doméstica, a profissional e o trânsito inculcam a massa crítica essencial do errar e do pedir - ou não - desculpas. Desculpas, claro, porque errare humanum est e assim, uns mais, outros menos, todos erramos. Podemos é não ter a inteligência para o perceber ou a decência de o reconhecer.

É fácil pedir desculpas? Não é. O paradoxo é que na verdade é redentor pedir desculpas - aprendi isso há muito tempo - mas o facto é que de alguma forma subsiste o vício de nos arranharmos todos por dentro antes que o façamos. Porquê? Para alguns trata-se de uma estratégia de gestão de poder em que lhes parece que pedir desculpas é uma submissão ao ascendente do outro. Isto é estúpido porque razão é uma coisa que ou temos ou não temos e o facto de a reconhecermos é no fundo indiferente à realidade. Ascendente, poder, isso é outra coisa e porque o mundo não é justo às vezes podemos baralhar poder com dever. Mas são coisas diferentes...                          ... li há tempos uma coisa interessante. Que muitas vezes a facilidade com que se pede desculpas tem a ver com a gestão narcísica. Egos resolvidos distinguem a sua auto estima de um "ser bom" e aceitam o acaso de "ter estado mal". Aceitam, censuram-se pedem desculpas. São os mal resolvidos que não o fazem porque na sua insegurança confundem estar errado com ser errado. E em alguns casos com boas razões. Só que não têm condições anímicas para aceitar nada disso.

O trânsito é para mim uma das dimensões mais simples e caricaturais desta coisa de assunção de erro. Há aqueles que sabem que o ataque é a melhor defesa e que mais vale ter sempre razão. Barafustam logo e investem contra o oponente a ser preciso de punho em riste e a ameaçar sair do carro "P'ó caralho pá, queres o quê? Bolinha baixa que o guarda-redes é anão, levas uma murraça nos cornos que inté dás uma volta dentro da cueca!". E é um guião simples e sem margem erro. Talvez seja uma manifestação cromagnon de razão, ou o despotismo de macho que não quebra nem verga seja lá porque for, não saberemos nunca nem que a coisa se desmanche no braço.

Depois há os tipos que sabem que não têm razão e até têm vergonha na cara. Apenas lhes falta a humildade e a coragem de fazer a parte mais simples. Esboçar um pedido de desculpas. São os que esquivam o olhar à censura do outro e fingem que estão a olhar na direção oposta até que o outro se vá embora e os desembarace de terem que assumir a sua pequenez.

Mas eu falo de tudo isto porque não somos todos assim e no outro dia aquele puto avançou meio metro quando eu atravessava na passadeira. Foi do parado para o devagarinho e eu não estive sequer perto de ser atropelado. Também, em qualquer caso, se tanto, tinha-me sentado no capot naquela dinâmica de sinistro em slow motion. O puto esboça-me um pedido de desculpas e eu aceno que está tudo bem. Ele abre o vidro insiste. "Amigo, peço-lhe imensa desculpa, não o vi."

"Amigo, peço-lhe imensa desculpa, não o vi."

...

... é muito, muito fácil. 

Ganhámos ambos o dia mesmo que os imbecis vão morrer sem perceber porquê.

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