Ode à arbitragem

A reflexão tomou-me de assalto no exato momento antes de começar a segunda parte. O árbitro olhou para o relógio, terá dito qualquer coisa ao resto da equipa, esperou resposta no auricular, marcou o cronómetro no relógio e apitou. Ele apitou e eu refleti. E recordei.

Os sensatos reconhecem que a turba crucifica o árbitro com franca injustiça. Depois de ver o lance de vinte ângulos em câmara lenta e ainda com simulações computorizadas da NASA e dois tratados de futebologia em X Tomos pelo Rui Santos toda a gente conclui sem dúvidas que era penalty. Provavelmente se não fossem doentes teriam ainda assim dúvidas mas um coração que ama não tem dúvidas. O árbitro - o tal que decidiu em segundos num salto de apito sem rede - é filho de puta! Os sensatos - os poucos - sabem que é injusto e qualquer oftalmologista sabe que não é possível ao fiscal-de-linha sacar foras-de-jogo milimétricos sem margem de erro a não ser que mande um olho para cada lado.

Claro que agora com isto dos video árbitros a problemática reinventa-se mesmo se alguma margem de erro se mantenha. Vejam-se os casos do Benfica v Sporting de hoje. Fosse eu o video árbitro e eu sei o que teria o outro ouvido no auricular "Oh caneco, olha, não tenho a certeza mas vá, manda seguir e prá próxima marcamos mesmo penalty mesmo que não seja!"

Mas eu não venho falar nem do jogo de hoje nem das mais óbvias iniquidades sobre a arbitragem, muito menos da video arbitragem!

Eu venho falar nos méritos e nas cruzes de ser árbitro e que ninguém valoriza! Valorizo eu!

E na verdade a memória assaltou-me ao refletir na concentração do árbitro a ver o jogo, ver o gajo com a bola, ver os gajos sem a bola, não ver mais nada para além do jogo, escutar o auricular, tirar notas, olhar para o relógio, apitar, fazer gestos com as mãos a assinalar falta para este lado, para aquele, golo, segue, para, livre, direto, indireto, tudo com uma data de códigos de polícia sinaleiro. Eu com tal todo list esbardalhava-me todo.

Para ser franco esbardalhei-me todo.

Uma vez caíram na triste ideia de me meter a gerir o placard do resultado num jogo de andebol do Ginásio Clube do Sul em Almada. Eu que nem as regras do jogo sei. A meio da primeira parte já eu ia todo baralhado na contagem dos golos e perante os protesto do público correram comigo.

Doutra vez puseram-me a apitar um Solteiros versus Casados da Zurich. Manda a sabedoria que o gordo vá à baliza porque o gordo ao menos sabe defender. O Rui como nem isso ficou para árbitro. Aprendi nesse dia que apitar é muito difícil. Os jogadores não ajudam: metem-se à frente e não nos deixam ver coisas. Fingem faltas. Às vezes não fingiam e caiam só e nem protestavam. Mas eu à cautela marcava falta sempre que alguém caía. Pensei que estatisticamente iria errar mais ou menos salomonicamente para ambos os lados desde que todos fossem caindo. Às tantas o Osvaldo cai na área e eu assinalto penalty (como não sei o gesto de sinaleiro para penalty apitei só e gritei "Penalty")- Alguém grita "Oh Dr., essa agora! Não é nada penalty!" - Era o Osvaldo. E eu percebi que era o mais patético árbitro de todos os tempos.

Suspirei...            ... eu jamais sobreviveria a arbitrar um Benfica-Sporting ainda que os jogadores recebessem todos prémio de fair play e no fim estivesse combinado irmos todos comer fondue a casa do Bruno de Carvalho.

O que é que poderia correr mal? Elaborei uma lista de francas possibilidades:

1) Esquecer-me de meter o cronómetro a andar no início do jogo e a primeira parte calculada a olho durar vinte minutos

2) Esquecer-me do cartão vermelho, ou do lápis ou de tudo e haver jogadores com três amarelos e nenhum vermelho.

3) Assumir decisões polémicas num bluff de convicção de quem na verdade se distraiu a ver o Jesus a sacar burriés do nariz.

4) Assinalar penalty a pensar que estava a mandar tudo para as cabines.

5) Ser linchado por festejar um golo


Bem hajam, bravos homens do apito!

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