Azevedo Attemborough na Savana de Albufeira
Nota prévia:
A crónica que se segue é de potencial mau gosto: dada ao fel gratuito e a um je ne sais quoi de estigmatizações. Shame on me que sou melhor do que isto mas como dizia o outro, eu perco a candura mas não perco a piada.
E a verdade - devo começar por aí - é que é tudo pela minha introversão. Sou de algum modo um gajo reprimido, sem a facilidade de soltar a franga como um homem comum. Se assim fosse eu não estaria agora a escrever, estaria a apanhar os cacos de mim mesmo após um reveillon aos pinotes embriagados. "Dance like nobody is watching you." ... ... mas Deus não me concedeu essa leveza, essa liberdade. Em vez disso deu-me o dom de observar. E por isso não me resta senão vir para aqui ironizar acerca da festa dos outros já que a minha foi de plácida contemplação.
Fomos para o Reveillon de Albufeira. A noite começou com o Agir. Eu respeito o Agir como produto arguto em que se soube transvestir, boneco caricatural de hip hop para catraios. O Bernardo sabe-a toda. A mim ele pode-me parecer um feiticeiro pigmeu a fazer a dança de acasalamento do babuíno mas ele sabe que os putos curtem daquilo e vibram quando ele pede que façam barulho e mais não sei quantos clichés de concerto. Repito, respeito o Bernardo porque ele sabe o que vende. Não sabe é cantar e apanhar com ele e a sua voz mal colocada e mal respirada de fanhoso a fechar o ano foi uma experiência dolorosa. Mas tudo bem, a seguir vinham os Xutos e os Xutos são sempre os Xutos. De concertos estávamos conversados e agora estava na altura de ir beber um copo a um bar qualquer ali da zona antes de fechar a loja e ir para casa.
Entrámos por completa alea numa disco tasca de reportório brazuco-reegaetónico e em boa verdade vos digo que me senti a partir daí o Grande Caçador de pérolas branco na savana. As mulheres tinham quase todas ares de milfs brasileiras - embora, claro, não possa saber se o eram todas realmente. Certo é que se dividiam entre as que mexiam com recantos obscuros e proibidos da minha líbido e as que simplesmente a eclipsavam (a libido). Os homens! Os homens pareciam todos sucedâneos mal amanhados do Sam Smith e tinham todos penteados retro daqueles dos barbeiros tatuados da moda. Ah, os blazers! Tinham todos blazers que pareciam ter encolhido na máquina de lavar ou comprados antes de engordarem vinte quilinhos. O DJ bombava Despacitos e coisas brazucas com letras sobre roçar a bundinha aqui e ali. Pelo meio das músicas gritava frases eloquentes de motivação aos foliões. Eu não ouvia DJs dados a estas exortações desde as minhas noites de degredo no Cantão Inglês de Benidorm. Será moda agora? Fosse como fosse a malta parecia entusiasmada e iam-se roçando todos uns nos outros. Elas sabiam da poda e desdobravam-se no que me parecia ser a coreografia específica de cada hit axé, sempre com muitos floreados de anca e drapejos de mãos delicadas com o indicador a apontar para o sexo. Eles de coreografia pareciam saber pouco ou nada. Estavam ali a ver se se roçavam e tinham sorte como diriam os Daft Punk.
Estão a visualizar a cena?
Pois bem a partir daqui peço-vos especial cuidado nesse esforço de viajarem e visualizarem pelas minhas palavras. Para ter graça vão ter que conseguir meeesmo visualizar e eu vou ajudar como puder. Bom era ter tirado foto mas não consegui.
Imaginem duas típicas matulonas quarentonas brasileiras da noitada do axé. Mestiças com travo de branca e negra e índia. Cabeleiras negras, compridas, brilhantes de produtos de salão. Maquilhagem a mais a transigir com as rugas. Cu grande mal contido na calça branca, soutien maravilha a empinar os seios que não são grandes mas até parecem no transbordo do decote. Estão na maior pândega na pista de dança. Gritam as letras que sabem de cor e são ortodoxas daquelas coreografias todas do axé vagamente porno.
Estão a visualizar?
Agora visualizem que estão na mais inusitada das companhias.
Um menino. Oito, nove anos. Um moreninho. Caramba que menino bonito e que ar inocente. Mesmo! Aprumadinho, penteadinho, óculos, calça de sarja, coletezinho. Um Harry Potter brasileirinho. Mesmo! Embora não possa saber ao certo vou adivinhar que esteja com a mãe. Com as tias? Algo assim... ... parecem saídos de filmes díspares mas assim é. Eu sorrio-me de que a vida é muito para além do preconceito dos meus clichés de má língua. Porque as tipas têm um ar manhoso mas adivinho apesar de tudo o que já disse e que vou dizer que são cuidadoras ternas e empáticas daquele menino de ar tão certinho. É só um palpite. Mas esta também é só uma noite e é Ano-Novo e as fulanas estão eufóricas. O menino tem o ar mais enfadado do mundo e vai cutucando uma e outra "Vamos para casa..." - leio-lhe nos lábios. Elas riem-se. Ignoram-lhe o pedido mas envolvem-no em mais uma coreografia de líbido aos saltos. A mãe e a tia - convencionei que é isso - embrulham o menino no meio de um roça roça entre as duas. Ele vai a dizer algo mas elas gritam-lhe ao ouvido o refrão, lavadas em riso "Não sei quê, ôce num viu? Vai prá puta qui pariu!"
Os Sam Smiths olham gulosos mas ali desconfio que não vão ter sorte. De alguma forma rio-me delas e simpatizo com elas. Sabemos lá de que vidas se exorcizem as tristezas nestes pequenos disparates? Vou apostar que esta noite só aquele menino enfadado as leva para casa.
Mas ainda tem muito que enfadar. As brasileiras entram em delírio. Toca de novo o Despacito.
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