Publicidade enganosa
Há dias estávamos num convívio de amigos, todos antigos colegas de curso: portanto éramos entre magistrados, advogados, juristas e coisas que o valham. Eu não apanhei a conversa do início mas alguém falava sobre um tipo que se sentia lesado por uma vidência do seu bruxo consultor a dar com os burros na água. E eu sem perceber se era uma mera anedota ou um processo a sério do contador da peripécia e já o Nuno rematava que a cretinice não era juridicamente relevante.
Claro, fiquei logo a pensar nas ironias da publicidade enganosa.
Melhor bolo de chocolate do Mundo, melhor Croquete do Mundo, melhor courato do Mundo. Mas isso não é realmente publicidade enganosa!
E nem sequer é publicidade enganosa insinuar que uma colónia nos vai tornar enigmáticos e sensuais. 'Tá certo, publicidade honesta seria dizer apenas. "Com Chanel você vai melhorar o smell."
Mas nem vou por aí.
Eu estava mais a pensar juridicamente nas questões de crendice e religiosidade. E a minha questão não é tanto de processar o Islão por publicidade enganosa por causa da história das não sei quantas virgens.Nem tampouco de me indagar se o "Venham a mim as criancinhas." viola a nossa Lei da Publicidade pelo uso abusivo da referência a menores . Mas há coisas que são mesmo demais. Se passarem à porta do antigo Cinema Império estão lá os catrapázios enormes da IURD. O da senhora que entrou em depressão depois de enviuvar e que tentou várias vezes o suicídio mas que hoje em dia é feliz e está montada nele. Ou do tipo que desbaratou tudo em jogo e drogas até aterrar na sarjeta mas que hoje em dia é empresário de sucesso e pai de filhos lindos. Tudo, claro, graças à IURD.
A IURD é uma máquina de comunicação competente e asquerosa que depreda o desespero dos néscios. Perante esse desespero não há decoro. Não se promete só redenção ou só amor ou só fé. Mete-se a carne toda no assador e promete-se amor, fortuna e bilhetes de época para a Luz. Isto no centro de Lisboa, gritado ao despudor em Muppies escarrapachados na Alameda. Ora a mim que trabalho em Marketing de Seguros isto irrita.
Porquê?
Tenho desavenças recorrentes com o meu Departamento Jurídico por bizantinices das coisas que eles não querem que eu diga em publicidade. Já se sabe, os tipos do Jurídico são sempre chatos e insossos: estão lá para ter medo de tudo enquanto que no Marketing medo é coisa que não nos assiste a não ser que o consigamos vender.
Lembro-me daquela vez em que não quiseram que se colocasse uma foto de um senhor em cadeira de rodas numa imagética de produto. Nunca consegui concordar. Afinal a vida concebe estas tragédias e a verdade é que o que nós vendemos é proteção para isso mesmo. Sem tretas. Cumprimos mesmo!
E é isso que me irrita!
Nos meus sonhos pornográficos a minha mente viaja e eu sou do Marketing da 'Universal do Reino de Deus. Ahhh, o Shan-Gri-La dos marketeers, suspiro e imagino. Onde nada que se prometa é suficientemente indecoroso e onde o Departamento Jurídico receba as nossas patranhas com ovações emocionadas.
E eu de repente já me imaginava - imaginava mesmo! - a mexer no Photoshop e a decalcar a minha Tag Line inspirada em cima da stock photo do tipo da cadeira de rodas.
FILHO, LEVANTA-TE E ANDA!
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