Pérolas
Vinha a sair da esplanada da Fortaleza. Sentados no muro junto à praia, lá estavam, esse grupo de amigos pelos vinte-e-tais. O mote deve ter sido a parada de cães a passear os donos no fim de tarde. Um deles começa a falar de raças, em tom coloquial a prender a atenção dos restantes. Às tantas vem o Dobermann e o tipo lá começa a explicar tudo acerca da raça, de como não é uma raça natural e foi criada pelos nazis para matar. Os outros seguiam com atenção as pérolas de sabedoria. E eu com dificuldade em não os abordar. "Não me leve a mal, mas só está a ensinar disparates aos seus amigos..." - disse-lhe eu em devaneio não concretizado.
No melhor pano cai a nódoa e ninguém está livre de crenças ignorantes, é um facto. Na era da internet a verdade é que se temos ao nosso dispor o meio para validar informação e corrigir a mão das nossas crenças erróneas também é verdade que a própria internet é o monstro que alimenta a ignorância em terabytes de mitos e desinformação. Mas às vezes - e isto é particularmente divertido - limitamos-nos a não refletir criticamente sobre parvoíces que demos por adquiridas há muitos anos e que nunca mais questionámos. A Eva certo dia bateu-se comigo acerca do perigo das osgas...
"As osgas são perigosas, fazem xixi para os olhos..."
A mãe contou-lhe aquilo em pequena e nunca se deu ao trabalho de desfazer a patranha nem ela nunca deve ter pensado muito nisso pelos anos fora em ensejo de se questionar. E por isso a osga reemergiu naquele dia, naquele nosso debate, qual navio fantasma saído do nevoeiro, de dentes afiados e bexiga apontada aos nossos olhos incautos. A culpa é da mãe, claro.
Com o dobbermanólogo deve ser o mesmo. Outro erudito de café lhe contou a história e nunca lhe deu para ler mais na Wikipedia. Até porque é uma história gira, melhor que a verdade.
A verdade é que a vida seria enfadonha a estarmos sempre certos.
Vim numas mini férias de fim-de-Ano com amigos. O Nuno veio connosco. É sempre bom passar uns dias de relaxamento com o Nuno porque ele tem o cérebro frito e a verdade é que debita pérolas.
Como quando ontem lhe disse que estava ali um gato morto e ele ripostou que os serviços da Câmara tinham que vir apanhar o cadáver por causa da Lei do atentado ao pudor.
Ou quando hoje referiu aquele familiar esquisito que era viciado em ler as páginas da Necrofilia no Correio da Manhã.
É por isso que gosto de ouvir os outros. Acaba sempre por valer a pena!
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