O preço de ter

O preço de ter é a perda. E a verdade é que se disto aprendermos o cinismo de escolhermos não ter então aprendemos a lição errada. Lembrei-me disto porque o Natal me traz sempre esse paradoxo. Eu já me perdi do Natal da euforia de criança ou da cena petit burgeois de charmes e prendas. O Natal é um check na "to have list" das coisas preciosas que tenho. E o Natal é um olhar plácido sobre as minhas perdas e esse instante que talvez seja sensato ou masoquista - provavelmente ambos - de meditar de que a vida é sempre a perder.

Mas a lição, justamente, é a da perceção da finitude e da fragilidade da vida. Não como quem deita a toalha ao chão mas como quem sorva cada instante.

Ontem uma amiga lança um olhar melancólico à fileira dos doces festivos na pastelaria da esquina. "A minha mãe fazia sempre isto." - Eu enrolo-me num silêncio incómodo de inépcia de dizer algo gentil sobre essa perda de que pouco sei. A única coisa que me ocorre é parva: perguntar como morreu a mãe. Mas eu sei que não é a pergunta certa porque é uma pergunta egoísta da curiosidade das peças em puzzle. Não, não é a pergunta certa mas assim de repente eu não sabia qual era a pergunta certa.

Hoje lembrei-me dos meus avós. Primeiro com tristeza mas é tristeza apenas de saudade. Nas recordações muito pouco é triste. E comecei-me a rir a contar à Eva. De quando há uns poucos anos achámos boa ideia colocar os headphones do home-cinema na minha avó. Surda que nem um pneu, puxámos o volume do sistema cá para cima e ela olhou-nos fascinada. Estava a ouvir! O volume cheio do filme entrava-lhe pelo corpo dentro e o seu olhar turvo e doce devolve-me aquilo que interpretei como um "wow".

Ficou ali horas, fascinada, de phones nos ouvidos a papar filmes de empreitada, sentada na poltrona que ainda lá está junto à janela. Só que depois quis-se levantar e foi aos tropeções, tonta daquela moca sonora.

No dia seguinte diria à minha mãe: "Ai, não me ponham mais aquilo. Fiquei com a cabeça zoada."

Que saudades, avó...

E de repente já sabia o que devia ter dito. A resposta certa não é ficar calado nem procurar as peças que menos importam no puzzle. A resposta certa é querer saber o que realmente importa e é por isso sei mesmo o que devia ter dito.

"Como era a tua mãe?"

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