O milagre da Sushi
Ao desafiar-me a um blog de ritmo diário duvidei de que me surgisse assunto para tanto. A verdade é que não me cruzam assim tantas histórias ou divagações dignas de ser contadas. E por isso pensei que lá teria que fechar as lacunas de melhor inspiração com entradas de vago diário. Os diários não têm que ser interessantes, são confessionais, são crónicas das vidas banais que suponho que tenham em si algo de valor. Pouco importava, era assim que eu resolveria o problema da falta de assunto mesmo que isso me custe o enfado em fuga do pouco público destas linhas.
Dito isto eu não tenho bem a certeza se o assunto de hoje tem guisas confessionais ou a veia de morais que procuro sempre nas crónicas. Talvez ambas.
Adoptámos a Sushi em Junho de 2016. Uma cadela gorducha e patusca importada dos Açores em resgate a um canil de abate. Queríamos um segundo cão que fizesse companhia à nossa cachorra Mokambo, uma yorkshire muito pequenina. E queríamos adoptar. Mas havia um problema a meio termo entre as nossas cautelas e as nossas paranóias. Meses antes morrera-nos nos braços a Martini, a pequena Yorkie, morta por uma labradora que até só queria brincar. E portanto estávamos abalados, mortos de medo. Precisava de ser um cão pequeno, sem riscos. Só que a Mokambo tem menos de três quilos e não se encontra com facilidade cães tão pequenos para adoptar.
Na busca alguém nos referenciou a Margarida. A Margarida é o que se pode definir como uma figura e tanto. Devotou-se à defesa de cães em situações extremas: doenças, senilidade, violência, abandono e é de uma fúria na sua causa como eu nunca tinha visto. A verdade é que a Margarida e a forma como as nossas vidas se cruzaram dá por si só uma crónica. Talvez um dia a escreva. Mas hoje abreviarei apenas para dizer que conheci a Margarida e pela mão da Margarida a Sushi veio dos Açores. E não sem hesitação nossa. Mesmo se foi impossível não gostar logo daquela terrier, traçada de Yorkie com Shi Tzu, que nos apareceu num monta cargas de aeroporto, a verdade é que era apesar de tudo um pequeno texugo com o triplo do peso da Mokambo e que a assustou no primeiro encontro. A Sushi esteve quase para ser renegada pelos nossos medos. Mas fechámos os olhos, respirámos fundo e abrimos o coração. A Sushi ficou e suponho que não demorou mais do que horas a ser aceite sem reservas lá em casa, com o seu estilo meigo e pachorrento de quem não faz mal a uma mosca (o que por acaso até é uma imagem infeliz porque a Sushi apanha e come moscas em voo).
Na primavera passada a Sushi começou de algum modo a definhar no comportamento. Parada, desorientada, passou a recusar-se a passear, descer escadas. Tristonha, caminhava pouco e no que o fazia era a deambular aleatoriamente de encontro às paredes.
Fomos ao veterinário e a explicação era simples. A Sushi estava completamente cega. Provável sinal precoce de senilidade. Afinal a idade da Sushi é uma incógnita. Talvez fosse mais velha do que a suposição inicial.
O que é que eu senti perante esta notícia? Duas coisas. Partiu-se-me um pedaço de coração e tive o desejo insaciável de encher aquele cão de beijos. Estava cega, estava cega, pronto, tudo se arranjaria.
Tudo é uma questão de hábito e nos últimos meses aprendi a capacidade fabulosa que estes animais têm de se adaptar. A Sushi foi saindo da apatia e mais cabeçada menos cabeçada foi decorando os cantos à casa. Foi ganhando vivacidade e suponho que todos nos fomos esquecendo que a Sushi era cega. E é curioso que eu ainda explicava às pessoas que a minha cadela era cega e isto inspirava sempre pena. Mas eu dei por mim a pensar que já nem pena tinha. A Sushi era um cão feliz e espetacular. Pena o caraças!
A verdade passou a ser essa e se querem que vos seja franco esta é a grande moral desta crónica. Talvez continuem a ler e pensem que não depois de saberem tudo mas o milagre da Sushi, se pensar bem, é sobretudo este: a vida vale muito para além da imperfeição das coisas, apesar dessa imperfeição. Talvez sobretudo por essa imperfeição. Eu não trocaria a minha terrier rafeira, cega, eventualmente sénior e dada a flautulências e ressonos por cão nenhum.
Ponto...
Até que a alguns dias o ânimo da Sushi subiu. Mais ainda. Deu-lhe de novo para passeios e corridas. A pontaria com o caminho certo dos seus roteiros afinou. Não afinou, tornou-se irrepreensível mesmo em terrenos desconhecidos. Na véspera de Natal a Eva diz-me "Oh Rui, eu acho que a Sushi vê de novo..." - Que disparate, era impossível!
Tinha que ser impossível. Certo?
Não sei o que vos diga porque todos os testes que lhe faça me asseguram isso, e embora eu próprio me ache palerma ao sugerir isso a verdade é que eu acho que...
A Sushi já não está cega.
Rui e Evita, por vezes temos surpresas tão agradáveis que nos fazem logo esquecer outros momentos menos agradáveis, os últimos meses foram devastadores , o último do meu pequeno Noggy também ele resgatado de um canil de abate, enucleação dos olhos. Ler a sua crónica sobre a Sushi foi como uma lufada de ar fresco, um raio de sol em dias tão enevoados. Não mereço os seus elogios, vejo em si e na Evita pessoas com um enorme coração que transformaram a vida da pequena Sushi, tão cruelmente despejada num canil de elevada incidência de abate. Por isso e tudo mais que têm feito pela pequenina Sushi estarei sempre tão agradecida, valeu a pena, vale sempre a pena quando conseguimos dar alguma felicidade a um ser que foi tão maltratado. A Sushi e o meu Noggy na verdade não são os cegos, infelizmente vivemos numa sociedade em que conseguimos ver mas não paramos para olhar. O Rui tem um enorme coração e aquele talento especial para escrever, talvez porque escreve com o coração. Muito sensibilizada sobre o que escreveu sobre a Sushi, só escreve assim quem realmente sente e gosta. Há algo que quero oferecer à Sushi, só ainda não foi possível mas será em breve. Muito obrigada pelo texto, pela Sushi, digo sempre que tenho os melhores adoptantes do mundo, acho mesmo que tenho. Margarida.
ResponderEliminarHá coisas inexplicáveis :)
ResponderEliminarPois, Ainda estamos parvos..
ResponderEliminarO amor faz milagres 😍 Bom ano!
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