Crónicas de bem dizer
Enquanto terminávamos o vinho eu explicava o grande problema subjacente às minhas crónicas: os alvos. Uma das minhas zonas de conforto é a ironia e a ironia tem que ter uma vítima. Dado isto, e sendo que infelizmente no meu micro público a carne que se trincha se confunde com a dos comensais, está bem de se ver que o preço da arte podem muito bem ser chatices. Armar-me em espirituoso à conta da vida doméstica ou da vida profissional pode trazer genuínas chatices. A Eva põe-me em sentido se me atrevo a escrever à conta de qualquer momento seu. E olhem, só por este apontamento de me serem vedados apontamentos já eu corro riscos com um travo a rolo da massa. Do emprego então, nem pensar. Havia de ser bonito abrir o livro armado em mordaz sobre o "9 to 5". Porque a verdade é essa, não tenho liberdade de expressão. A sensatez amordaça-me e apenas as idiotices que ouço à socapa de estranhos por aí é verdadeira zona franca. E eu até já me coloquei a questão: poderia eu sobreviver na latitude das observações benignas?
Poderia?
E porque é Natal hoje vou tentar.
A Eva trouxe da escola as cartas ao Pai Natal dos seus miúdos. E eu gostei tanto de os ler que a esta hora em que escrevo no ócio de antes de dormir, trouxe comigo para a cama os postais para reler e sorrir.
A melhor carta era talvez a mais curtinha
"Pai Natal, eu queria por favor uma caneta com todas as cores do Mundo."
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