Catolicismo para totós

"A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude."

François duc de la Rochefoucauld 


Devo dizer que sou um profundo céptico dos valores da Igreja desde de que me lembro de ser amostra de gente. E eu acho que se deve ao olhar irónico que me foi sempre irresistível lançar aos paradoxos. Ora a hipocrisia é em si um paradoxo e o Catolicismo sempre me foi evidente como profundamente hipócrita. E no entanto só hoje lancei alguma luz pessoal sobre a utilidade da hipocrisia na higiene mental dos católicos. Até aqui estava indignado com tamanha parvoíce. Doravante acho que me resigno.

O mote foi este artigo.

Eu sempre percebi o lado que mais me estremece na Igreja: o argumento de fé em defesa do conservadorismo e de um status quo. A legitimação de castas, poderes, hierarquias, tantas vezes iniquidades, por direito divino. Tudo certo porque o calculismo eu entendo. O que eu demorei mais a entender foi a dimensão moral e ética da coisa. Luta de classes é uma coisa, sexualidade é outra e custava-me a entender a moral quase assexuada da doutrina cristã em questões de casamento, divórcio, sexualidade anti-conceção, homossexualidade e quejandos. É que a Igreja não se limita a não ser progressista: a Igreja vive numa negação esdrúxula da realidade, desde logo da realidade ética da esmagadora maioria dos católicos: poucos acreditam na bondade dos dogmas, nenhuns os cumprem. Posto isto o Rui viveu 41 anos no pecado de não perceber porque é que esta gente toda persiste em comungar.

Mas já não!

Agora sei que há motivos férreos para persistir nas tolices: metade dos crentes não se importam e mais vale uma teologia disparatada do que o vazio referencial de teologia nenhuma; a outra metade acredita realmente no casamento indissolúvel e no sexo estritamente procriacional e na abominação homossexual. E mesmo que depois sejamos uns depravados impenitentes, ainda assim, a referência da perfeição divina está lá e é lá que deve estar porque a Igreja é sobretudo para eles, os pecadores! E portanto não mexe! Finalmente resta a charada da infalibilidade do Papa. Como é que agora se vai dizer que os Papas eram todos uns imbecis? Não pode! A força da igreja reside sobretudo no bluff de aumentar sempre a parada e nunca mostrar a mão. Sem isso arrisca-se ao desmoronamento e os conservadores podem bem estar cheios de razão.

E eu lembrava-me do puto da Vanda e da desilusão que teve este ano ao descobrir que o Pai Natal não existia. Suspirou e disse à mãe. "Está bem, não existe. Mas posso escrever-lhe na mesma?"

Nestas aspirações reside o âmago da espiritualidade e talvez seja melhor que não nos privemos dela mesmo que amigos imaginários  sejam a pedra basilar dos amigos secretos do tráfico mundano. 

Se João Paulo II tivesse escrito a Encíclica "De Pai Natalis veritate", o problema estava resolvido!




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