Boxing Day
Entre a Consoada e a ressaca do fim do dia de Natal a cidade morre e os lares arderão com um ardor raro, animados pelas famílias em Concílio. Claro que sobram coisas lá fora. Há mais do que ruas desertas para quem queira sair e beber um copo. E, claro há os que ficam fora porque as portas lhes estão fechadas. Olhem, como o tipo que arruma carros aqui na rua. Ontem senti-me parvo. Voltávamos com as mãos cheias de sacos depois do almoço de Natal. Saudei-o. "Está bom?" Não, não estava. Encolhia-me os ombros. Tinha passado a Consoada na rua ao jejum e à solidão até se deixar vencer e se arrastar para a fábrica em ruínas da Portugália. Vive lá por generosidade dos donos. Tem a chave e tudo, mostrou-me certo dia com até vaidade. Mas ontem não havia vaidades. "Ninguém me veio ver... ... ninguém..." - Balbuciei um "Coragem..." - Sou desajeitado a dizer coisas onde não me ocorram soluções. À noite fui à procura dele com o que sobrou do jantar e alguns chocolates. Encontrei-o, fera enjaulada nesta rua de estacionanço de que é cativo. De um lado para o outro. Falava com alguém ao telemóvel... ... ao telemóvel! Isso envergonhou-me de seguida mas primeiro ironizei-me desta recordação de que os sem-abrigo têm todos telemóvel - Mas a crónica de hoje não é sobre as minhas ironias mesquinhas - O meu arrumador lamentava-se novamente de que ninguém da família lhe estende um carinho. Nem filhos, nem irmãos, nem sobrinhos. E da fome e da solidão. Do outro lado alguém mais afoito do que eu a falar em causas difíceis devia estar a dizer os mais bem intencionados disparates. Adivinho que fosse uma das idosas da vizinhança com que já reparei que este tipo desenvolveu algum grau de relação. Às tantas irava-se "Mas ir para Braga? Como assim?!! Oh minha senhora, eu sou sem-abrigo! Como é que quer que eu tenha dinheiro para ir passar o Natal a Braga? A pé?" Eu lembrei-me da senhora beata que andava comigo nas rondas da Comunidade Vida e Paz e que dizia a tipos com ar absolutamente desgraçado coisas como "Ah, ganhe juízo, arranje uma rapariga como deve ser e organize a vida." Eu não ia dizer nada deste estilo mesmo a correr o risco da aridez de nada dizer. Quando pude entreguei-lhe o saco com a comida. Hoje não ia haver fome. Era a única coisa que podia resolver.
Entretanto o Natal passou. Hoje foi Boxing Day, como vai sendo moda dizer, a importar de Inglaterra. Fui às Amoreiras. A cidade anima-se se novo numa espécie de réplica de Natal ainda a pairar. Há Saldos! Como se a cidade não estivesse sempre em saldos e como se alguma vez estivesse realmente... ... mas eu senti-me bem em ver de novo azáfama. As ressacas de festa deixam-me melancólico.
Às tantas o caminho cruzou-me com aquela avó e aquela neta. No instante fugaz de nos cruzarmos na verdade só ouvi aquela resposta da mulher para a menina.
"Claro que me vou lembrar sempre dela. Como poderia eu alguma vez esquecer-me da tua mãe? Ela era minha filha, amor..."
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