A ameaça lésbica
Ontem fiquei a meio de ver A Vida de Adèle mas para a moral desta crónica o que vi chega. É uma história de amor lésbico. Se quisermos ser justos é uma história universal de relações e a narrativa só se espartilha na exiguidade da relação homossexual em alguns pontos específicos do que é um amor homossexual e na evidência gráfica de duas gajas engalfunhadas. Mas eu escrevo não tanto pelo filme mas porque dei por mim surpreendido a analisar os sentimentos que o filme me foi despertando...
Reparei primeiro que estava a ter alguma dificuldade a empatizar com as protagonistas. Eu sou um lamechas, um "sucker" por histórias românticas e a verdade é que não estava a sentir o click emocional da empatia, justamente, esse gatilho emocional que faz a diferença entre a venda e o flop na narrativa cinematográfica. Sorri em semi devaneio enquanto via o filme. Eu não estava a sentir o click pelo mesmo motivo que as tragédias no fim do Mundo não nos perturbam tanto e pelo mesmo motivo que leva ao habitual whitewashing do casting de Hollywood: tipos brancos com que um público branco se possa identificar. E por isso eu estava ali, um heterossexual com dificuldade em empatizar com este amor lésbico. Pior, às tantas - spoiler alert - dei por mim com sentimentos curiosos quando a narrativa desagua num triângulo amoroso com um gajo à mistura. Eu estava a torcer para que a miúda ficasse antes com o gajo! Nada na construção do enredo tinha na verdade essa sugestão porque o filme é a história de amor entre as duas miúdas e o gajo é um acaso de percurso, um equívoco. Só que esse equívoco sou eu, é com ele que me identifico. Uma miúda tão gira, engalfunhada com a outra, que desperdício, pá! Devia era fica comigo!
Sorri de novo a concluir a minha auto análise. Toda a minha genuína apologia da causa homossexual, toda a minha racionalidade, todos os meus sentimentos de justiça e de tolerância. Até toda a minha empatia- aí sim, empatia, com os meus amigos homossexuais. Com a minha amiga lésbica que reconheci em detalhes deliciosos da história. Pff, tudo ruiu e caiu por terra num momento não empático do Rui primário, bronco, assustadiço. Do macho cioso da sua coutada, temente da ameaça concorrente e que por instinto se reconhece no que lhe seja de alguma forma parecido e se estranha na diferença.
Quarenta e um anos de civilização destruídos por ciúmes de um amor lésbico!
Vou acabar de ver o filme e tentar torcer pelas miúdas.
Mas não prometo nada: não há direito, virem roubar as mulheres a um gajo, pá!
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